A Páscoa da simplicidade

Ovos de Páscoa coloridos e enfeitados, símbolos de fertilidade. Foto: FreeImages.com/merve toprak
Ovos de Páscoa coloridos e enfeitados, símbolos de fertilidade. Foto: FreeImages.com/merve toprak

Tenho passado por um movimento que começou muito lentamente e hoje ocupa boa parte da minha vida. É um movimento que prega viver com menos, de maneira mais desapegada e tranquila, procurando evitar os excessos. Mas é sempre bom deixar claro: nunca tive excedente financeiro que me permitisse abusar da coerência, gastando, sei lá, 15 mil reais num vinho ou numa bolsa. Não, não. Mas já fiz cá as minhas extravagâncias, dentro das minhas posses, e hoje vejo que poderia ter investido esse dinheiro na compra de uma casa própria, por exemplo, coisa que me faz uma falta danada agora.

Nessas épocas de festas familiares, como a Páscoa, sempre me pego pensando em consumismo. É uma data bonita, simbólica, independentemente da religião que se siga. Mas o aspecto do consumo atinge patamares astronômicos nesses momentos.

Virou febre esses dias na internet uma foto mostrando um ovo de Páscoa brasileiro, vendido nos Estados Unidos por um preço supostamente irrisório perto do preço (caro) do mesmo ovo vendido por aqui. Verdade ou não, fato é que logo começou a querela. Alguns bradavam contra a existência dos ovos de chocolate e seus preços absurdos; outros relativizavam, botando a culpa no governo e na carga de impostos. No meio dessa crise maluca que estamos vivendo, o acirramento de opiniões se dá até por um simples ovo de chocolate.

O que eu penso disso tudo? Deixando a política de lado, digo que adoro ovos de Páscoa. Mesmo. De verdade. Já coordenei degustações deliciosas quando trabalhava na redação da revista Prazeres da Mesa, com ovos de mil e uma qualidades. Já gastei alguns bons dinheiros em ovos de Páscoa grandes e pequenos, para mim e para a família, numa tentativa boba de compensar algumas ausências de infância. Mas, de uns anos para cá, a coisa tem mudado de figura por aqui. Primeiro, por conta da intolerância à lactose fica difícil comer com vontade os exemplares ricos em leite, por motivos óbvios. Segundo, que chocolate de verdade, do bom, é caro. Caríssimo. E atinge patamares dantescos nesta época de Páscoa.

Resumindo: faz anos que não compro um exemplar para mim. Ou eu mesma faço em casa, com matéria-prima de primeira qualidade (chocolate elaborado apenas com manteiga de cacau, sem hidrogenados), ou compro ovinhos bem pequenos, daqueles maciços, de marcas mais acessíveis e que ainda vendem chocolate mesmo, não uma mistura louca de conservantes, aromatizantes, soja, gomas, etc.

Procuro o melhor produto, dentro das minhas posses, mas, principalmente, procuro não pirar. Antes, eu adorava aqueles ovos de Páscoa enormes, cheios de firulas. Hoje, prefiro os menores, mais artesanais, que sejam de chocolate de verdade.

E o que tem a ver meu modo de vida atual com esse excesso todo? Tudo a ver. Li esta semana que uma marca importante de chocolates do mercado brasileiro está comercializando um ovo que custa mais de 400 reais, vem com uma pulseira de prata. Longe de mim julgar o que cada um considera bacana ou não. Pessoalmente, acho exagerado. Como sabemos, o salário mínimo no Brasil atualmente é de 880 reais. Percebe? Me pergunto se a gente precisa mesmo de um ovo de chocolate que custe tudo isso, mesmo que venha com uma joia dentro. E, claro, fico estarrecida com o valor irrisório do nosso salário mínimo, tema de debate para outras discussões.

Note que eu adoro chocolate! É o único doce que amo, de fato, e que não quero viver sem. Mas tenho noção e me dói ver essas coisas, esses excessos de consumo que, a meu ver, aumentam ainda mais o abismo entre os muito-ricos-de-verdade-mesmo e os pobres, miseráveis, classe média remediada e etc, que somos muitos.

Se a gente pensar, a Páscoa tem origens em comemorações pagãs, pré-cristãs, que remetiam a deusas da fertilidade. No Hemisfério Norte, onde teve início essa tradição, o fim de março representa o fim do inverno e a volta do sol e do verde, os animais saem de suas tocas e todos voltam a respirar aliviados sem neve e gelo por toda parte. Aqui embaixo, no Hemisfério Sul, é exatamente o oposto: em março volta o outono, mas o frio por aqui é suave como uma brisa, exceto em alguns locais no extremo sul. Com a simbologia cristã, a Páscoa adquire contornos interessantes, com os aspectos de ressurreição, perdão, vida eterna. Todos muito bonitos e que podem ser apreendidos por todos, religiosos ou não.

Estou certa de que há muitos mais significados relacionados a essa época do ano em outras culturas, outras religiões. Páscoa não tem a ver com consumo, tem a ver com laços, com união.

Pensando nisso tudo, este ano quero fazer uma Páscoa diferente. Vai ter chocolate, claro, mas vai ser o melhor que eu puder encontrar, pelo preço mais justo – esqueça os 400 reais, não vai rolar, nem que estivesse sobrando. Se der para comprar, vai ter bacalhau, porque está uma loucura o preço este ano. Amo muito este ingrediente – tanto que sou capa da Menu, este mês, com uma matéria de bacalhau e azeite. Mas, se não der, já decidi: vai ter peixe desprezado, daqueles que ninguém dá bola, mas que são uma delícia: sardinha, agulhinha, anchova, porquinho… Bons, frescos, baratos, sustentáveis. Fiz outra matéria linda para a revista Casa e Comida este mês, justamente sobre isso.

E para beber, vinho. Porque a gente corta os excessos, apara as arestas, mas há que se ter algum prazer nesta vida, ainda que com moderação. Boa Páscoa para você! 🙂

"Ostara" (1901), de Johannes Gehrts (domínio público).  Imagem: Reprodução
“Ostara” (1901), de Johannes Gehrts (domínio público). Imagem: Reprodução

“Ostara” (1901), de Johannes Gehrts (domínio público). Mostra a deusa Ēostre/*Ostara, relacionada às antigas festividades pagãs desta época do ano, das quais teria derivado a Páscoa cristã.

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